domingo, 16 de agosto de 2009
A lista: mais uma da mulher real contra a ideal
Dessa vez eu me organizo, não há dúvida. Basta fazer uma lista, eu já li muito sobre isso. Ah! E é claro, cumpri-la. Mas eu não preciso me preocupar com isso, nem pensar em nada: é só cumprir a lista para ser feliz. O despertador (faz parte do meu novo eu) tocou depois de me ameaçar a noite inteira com aquele barulhinho dos ponteiros. Acho, agora, que o segredo das pessoas pontuais é esse: nem dormem. Também esteja aí também a razão dos pontuais serem chatos: não dormem. Depois dessas descobertas incríveis, eu resolvo levantar assim mesmo. Tinha decidido, também, meditar antes das crianças acordarem. Após algumas tentativas percebo que, como estou com sono e um pouco irritada - como todo o ser pontual - preciso meditar sobre algum assunto que me agrade, só para facilitar o processo. Decido meditar sobre a roupa que eu vou vestir para trabalhar. Eu meditei tão bem, que eu comecei a imaginar que tinha dinheiro para uma cirurgia de pálpebra e me imaginei linda. Foi ótimo, até a minha filha pré-adolescente gritar que estava atrasada para se arrumar, que todos estavam contra ela e que queríamos que ela fosse feia para aula. Como hoje eu meditei, calmamente respondo – mas não muito, por causa do barulhinho do despertador – que se ela fosse para a aula com a cara rebocada iria apanhar. O mais novo choraminga um pouco, mas tudo bem: eu vou calma e organizadamente preparar o café. Sobre o café da manhã, eu não quero falar e pouco me recordo, eu apenas sei que só não fui trabalhar de chinelo porque o tirei do pé no elevador para ameaçar o filho do meio que se lembrou da mochila com o material do colégio quando quase chegávamos ao térreo. Pausa filosófica: porque os filhos nunca vão escovar os dentes quando mandamos? Quanto, exatamente, é, em minutos, em horas, o “já vou”?. A minha experiência diz que o “já vou” pode até durar dias. Hora do almoço: decido que vamos todos almoçar no restaurante a quilo para dar tempo para fazer tudo o que eu tenho para fazer. Ainda não cumpri item algum da minha lista, mas tudo bem, eu estou muito positiva. Não contava com a fila enorme no Buffet e com tão pouco tempo até o ônibus escolar apanhar as minhas crianças para as outras atividades. Olho para baixo tentando me acalmar e dou de cara com um pé calçando exatamente o sapato que eu andava querendo para mim, antes de gastar quase todo o meu dinheiro com o uniforme dos filhos. Eu vejo um pé meio grande demais, meio feinho, mas, ainda assim, sinto um tanto de inveja. Ergo a cabeça e dou de cara com uma bicha sensacional, com um cabelo maravilhoso e calçando os sapatos que eu tanto queria. Além de tudo ele é o primeiro da fila do Buffet e, vagarosamente, com delicados movimentos, vai se servindo. A minha filha me pede para ir a uma festinha no final de semana, eu digo não, e por alguns momentos ela fica meio parecida com a Richtofen me encarando. O filho do meio começa a me mostrar que aprendeu a arrotar voluntariamente. Veja bem: não matemática, não português, mas a arrotar bem alto, na fila do restaurante, bem pertinho dos meus colegas de trabalho. Nisso o meu caçula choraminga que está com fome.Transfiro toda a minha raiva existencial para a bichinha, mas tento lutar contra. A fila anda e eu pergunto bem alto se o meu filho quer uma “bichinha”, quando queria dizer um peixinho. A bichinha se volta assustada, eu tenho certeza que eu vou apanhar e muito – ela é enorme - mas ela deve meditar há mais tempo que eu, porque, refinadamente, me despreza. Perdemos o ônibus escolar e eu acabo chegando atrasada no trabalho. Cinco e meia da tarde, vou tentar cumprir pelo menos um item da minha lista – para quem está começando a ser organizado, já está bom – vou levar o meu sapato preferido para pintar. Mas o dia foi muito difícil. Eu descobri que a vida das mulheres organizadas também não é fácil. Eu estou com muita vontade de chorar, mas como eu sou agora uma pessoa organizada, vou chorar no local adequado, quando chegar em casa, após o jantar, depois de tirar a maquiagem. Para ajudar evoco a imagem da minha mãe gritando “engole o choro”. É eficaz. O sapateiro me comunica que o sapato não é de couro e não pode ser pintado. Embora ele tenha sido delicado, ouvir isso não foi fácil para mim. O rapaz do penhor pouco antes já havia me comunicado que o anel de noivado que o meu ex-marido me dera era bijuteria e agora nem o meu sapato favorito era de couro! Foi a gota d’água para liberar o meu choro, tive que ser um pouco desorganizada e chorar na frente do sapateiro mesmo. Mas ao contrário do que eu previra foi uma beleza: o sapateiro ficou tão nervoso que prometeu estudar um jeito de pintar o meu sapato - eu acho que ele chegou a me prometer um sapato novo,não ouvi bem, porque eu soluçava muito alto - e gentilmente me acompanhou até a porta. Volto para casa bem devagarzinho, muito aliviada pelo choro. É outono e da janela do ônibus vejo que o sol se põe na Ilha. Pelo telefone celular, ouço que as crianças já estão em casa em segurança e que um deles quebrou o despertador. Tudo bem. As minhas gavetas continuam desarrumadas, certamente há louça suja na pia e eu resolvo aproveitar apenas mais um item da minha lista antes de jogá-la fora: ver o sol se por na ilha, no outono, ainda que seja da janela do ônibus.
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Sensacional!!!!!!!!!!
ResponderExcluirhuahuahua.. tu nao existe minha prima... fantastico tua escrita...
ResponderExcluirqdo é q sai o LIVRO !!!?